segunda-feira, 12 de julho de 2010

Fragrância

Ainda sinto o teu cheiro a entrar-me pela casa, pela primeira vez. A medo, muito a medo. Nenhum de nós sabia bem porquê a casa, porquê o cheiro. Sabíamos que estávamos bem ali, eu sabia. Sabia mesmo. Talvez na altura não soubesse tão bem como agora. Típico do ser humano. É uma característica comum da humanidade: esperar que o jogo acabe para lamentar o que podia ter sido feito de forma diferente. Lamentar depois de perder.

Ainda tenho a pele quente, do calor da mão dada.A blusa amarrotada pelo abraço arrepiante. E o cheiro. O cheiro era forte demais. Transportava-me. Sempre fui sensível às fragrâncias. Sempre fui capaz de me transportar para momentos, para lugares, apenas com um cheiro. Mas o teu, o teu era diferente. Especial. Demasiado especial para desaparecer, assim tão repentinamente.

Foi por isso que quando entrei em casa o teu cheiro ainda lá estava. Fechei as janelas. Tranquei a porta. Não queria por nada que aquela fragrância fugisse dali. Típico do ser humano. Tentar preservar uma coisa que com o tempo desaparece. A mim não me parecia difícil. Quem quer muito uma nuvem sobe ao cimo das árvores. E a mim já me disseram que era capaz de trepar árvores. Agarrei-me a esse pensamento. Com a porta trancada e as janelas fechadas. Desci as persianas. Era mais seguro. Completamente às escuras. A preservar a tua fragrância. Não sabia bem por onde andava, dentro da minha própria casa. Mas pelo menos ainda sentia o cheiro. O teu.

2 comentários:

Elsa* disse...

Das coisas mais lindas que li nos últimos tempos.
*

Catarina disse...

Não desapareceu, só está à espera do momento certo para poder voltar a entrar e tornar-se mais forte, uma fragância que ficará entranhada de tal forma que não mais precisarás de ficar às escuras *

Aqui*